As memórias ribeirinhas do São Francisco precisam de arquivo, não de saudade
Gravei 212 horas de entrevistas em onze comunidades do médio São Francisco. Se nada for digitalizado nos próximos cinco anos, metade disso se perde com quem contou.
Vou dizer de uma vez o que penso: memória de comunidade tradicional não se preserva com homenagem, placa ou data comemorativa. Preserva-se com arquivo catalogado, acessível e com orçamento de manutenção. O resto é saudade, e saudade não sobrevive a quem sente.
Entre 2008 e este ano gravei 212 horas de entrevistas em onze comunidades ribeirinhas do médio São Francisco, entre Barra, Morpará, Ibotirama e Muquém do São Francisco. Fui atrás de ofício de pesca, canto de trabalho, técnica de construção de canoa de um tronco e das histórias de cheia que estruturam o calendário dessa gente.
A maioria dos meus entrevistados tinha mais de setenta anos quando falou comigo. Vinte e nove deles já morreram. Não é uma observação sentimental, é um dado de prazo: cada ano sem digitalização é perda definitiva de conteúdo que não existe em nenhum outro suporte.
Guardar não é empilhar
Metade desse material está em fita cassete e em minidisc, formatos cuja camada magnética se degrada com o calor e a umidade daqui. Tenho caixas em armário de casa. Isso não é arquivo, é estoque em risco, e eu sou a primeira a dizer que a culpa de não ter resolvido é também minha.
O custo de resolver é conhecido e modesto. Digitalizar as 212 horas, com transcrição e catalogação em padrão de arquivo, orça em torno de R$ 180 mil. É menos do que um trecho curto de recapeamento, menos do que um palco de festival de três noites.
O senhor pode gravar, sim. Mas grave direito, que depois que eu morrer ninguém mais sabe o nome desses peixes.
Quem deveria pagar isso? O museu reaberto em Barra tem agora laboratório de conservação e já recebeu parte dessas gravações. É o lugar natural. Mas acervo sem rubrica anual de manutenção vira sala fechada em cinco anos, e disso esta região tem exemplo em quase toda cidade.
Minha proposta é concreta e cabe em uma linha de orçamento: rubrica permanente de digitalização e catalogação vinculada ao museu, com acesso público em rede. Sem isso, em dez anos vamos estar escrevendo artigos nostálgicos sobre um saber que tivemos em mãos, gravado, e deixamos apagar.
Sobre quem assina
Historiadora e professora universitária, doutora em memória social. Desde 2008 documenta o ofício, a fala e a música das comunidades ribeirinhas do médio São Francisco. Na coluna, escreve sobre patrimônio imaterial, política de acervo e a cultura popular do Oeste e do Velho Chico.
