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Opinião

Conservar o Cerrado e produzir não são escolhas opostas

Passei dezoito anos indo a campo para ouvir que preservar custa produtividade. Os dados de irrigação de precisão do Oeste dizem o contrário, e eu insisto nisso.

Por Marina Albuquerque5 min de leitura

Quero começar pela conclusão: conservar o Cerrado e produzir no Cerrado não são escolhas opostas, e quem continua apresentando a questão desse jeito está defendendo um interesse, não um argumento técnico.

Digo isso com a autoridade limitada de quem passou dezoito anos subindo em caminhonete para medir umidade de solo em São Desidério, Correntina e Formosa do Rio Preto. Nesse tempo, ouvi a mesma frase em quase toda porteira: cuidar da vereda custa saca. Nunca vi um dado sustentar essa frase.

O piloto de pivôs com decisão automatizada que esta região acabou de concluir mostra o oposto de forma incômoda para os dois lados do debate: 22% menos água por hectare e a mesma produtividade de milho safrinha. Não houve sacrifício. Houve desperdício que deixou de existir.

O problema não é a tecnologia, é a escala de adoção

Aqui está o ponto que me interessa de verdade. Pela minha estimativa, algo como 7% da área irrigada do Oeste tem sensoriamento de solo que efetivamente comanda a lâmina de água. Os outros 93% irrigam por calendário, por hábito, por medo de errar para menos.

  • Custo de entrada de R$ 648 por hectare, que se paga em duas safras
  • Assistência técnica capaz de interpretar o dado, que hoje falta
  • Crédito de custeio que aceite sensor como investimento, e não como despesa
  • Medição de outorga por consumo real, e não por vazão autorizada

E há a parte que o setor não gosta de ouvir: a conservação das veredas não é um favor ambiental, é a condição de recarga dos aquíferos que alimentam esses mesmos pivôs. Quem desmata cabeceira está sabotando a própria irrigação em dez anos. Não é moral, é hidrologia.

Também não aceito o discurso fácil do outro lado. Dizer que irrigação no Cerrado é insustentável por definição ignora que a mesma tecnologia que permite irrigar permite irrigar menos. O inimigo nunca foi o pivô. Foi a decisão sem dado.

Vou continuar escrevendo isso até cansar: a agricultura de precisão é, hoje, o melhor instrumento de conservação disponível nesta região. Quem quer preservar o Cerrado deveria estar brigando por sensor em pivô, não contra ele.

Sobre quem assina

Marina Albuquerque

Engenheira agrônoma com mestrado em recursos hídricos, atua há dezoito anos em campo no cerrado baiano. Trabalha com manejo de irrigação, conservação de veredas e agricultura de precisão. Escreve sobre o encontro, e o atrito, entre produzir e conservar.